Blog do Tony
Por Tony
Acordar cedo para ver o mundo ruir não é exatamente um privilégio, mas Bobby Seagull fez isso às 6h da manhã de 15 de setembro de 2008, em Canary Wharf, Londres, quando o Lehman Brothers virou história — e uma caixa de papelão virou símbolo de carreira encerrada. Hoje, 2026, os sinais de alerta voltaram a piscar: fundos de crédito privado restringindo saques, petróleo acima de US$ 100 com o Estreito de Ormuz fechado pelo conflito com o Irã, uma bolsa obcecada por sete gigantes de IA e formuladores de política com menos munição do que gostaríamos. Déjà vu? Não. Mas a rima é desconfortavelmente familiar.
O prelúdio que já vimos: nervos, alavancagem e crédito que some
- Em 2007, a inadimplência dos subprimes nos EUA detonou perdas e congelamentos em fundos ligados a Bear Stearns, BNP Paribas e outros. O pânico evoluiu até os próprios bancos desconfiarem uns dos outros, parando de emprestar e empurrando o mundo para a crise de crédito que culminou no colapso de 2008.
- Agora, a versão 2026 do frio na espinha vem do crédito privado: BlackRock, Blackstone, Apollo e Blue Owl enfrentaram pedidos bilionários de resgates em fundos que, nos últimos anos, viraram “bancos paralelos” para preencher o vácuo deixado por regulações pós-2008.
- Sarah Breeden, vice-governadora do Banco da Inglaterra, soa o alarme: o setor cresceu rápido, é pouco compreendido e ainda não foi testado sob estresse. Tradução: conhecemos mal a casa de máquinas onde a alavancagem é “alavancagem sobre alavancagem sobre alavancagem”.
Opinião do Tony: chamem isso de Matrioshka da dívida. Quando o ciclo vira, cada camada promete amplificar a dor — e o sistema financeiro adora cumprir promessas nas horas erradas.
Crédito privado: corrida bancária sem fila na calçada
- Mohammed El‑Erian (Allianz, ex-PIMCO) diz o óbvio que ninguém quer ouvir: subestimamos o risco. As regras que deixaram os bancos mais “chatos” empurraram o risco para fora do perímetro regulado — e agora os “quase-bancos” oferecem liquidez ilusória para ativos nada líquidos.
- Larry Fink (BlackRock) discorda: problema localizado, nada parecido com 2007–08, até porque os bancos estão mais capitalizados. Sim, a própria BlackRock limitou resgates, mas, segundo ele, não há risco sistêmico generalizado.
- A comparação que circula no mercado é cruel: uma corrida lenta aos “bancos” — sem fila na agência, só formulários online de resgate. Em 2007, havia fotos das filas do Northern Rock no Reino Unido; hoje, há e-mails de “gate” e janelas de liquidez. O roteiro mudou, a ansiedade é a mesma. (Registro histórico: o caso Northern Rock foi o primeiro bank run britânico em 150 anos e acabou em nacionalização.)
Energia: quando o barril resolve relembrar 2008
- O preço do Brent saltou de cerca de US$ 50 para US$ 100 no fim de 2007 e atingiu US$ 147 em julho de 2008 (algo como US$ 190 em valores atuais). Geopolítica com Irã ajudou.
- Agora, o déjà vu energético tem nome e CEP: Estreito de Ormuz fechado pelo conflito com o Irã, e o petróleo de novo acima de US$ 100. Fatih Birol (Agência Internacional de Energia) chamou isso de “a maior crise de segurança energética da história”, mais grave do que 1973, 1979 e 2022 somadas. É um jeito elegante de dizer: se isso durar, segurem os cintos.
- Ainda assim, os preços não repetem 2008 — por ora. E, curiosamente, as bolsas seguem perto das máximas. Mercado é esse sujeito que presume paz até o último minuto… e depois jura que ninguém avisou.
Bolha de três letras: I-A
- Mais de US$ 2 trilhões despejados em IA criaram o clube das “Sete Magníficas” no S&P 500 (Nvidia, Microsoft, Alphabet, Amazon, entre outras), que concentram cerca de 37% do índice. Goste você ou não de chips e modelos generativos, se investe em fundos de índice, você já comprou o pacote.
- Um ajuste nessas ações? Doe para a macroeconomia: atinge poupadores, fundos de pensão e a confiança geral. O Nasdaq já mostrou o caminho no pós-bolha ponto-com (queda de quase 80% entre 2000 e 2002). Tecnologia não morre — ela só reprecifica de forma pedagógica.
Política econômica: os bombeiros sem água
- Em 2008, governos abriram a torneira: capital nos bancos, garantias a depósitos, cortes coordenados de juros. Hoje, o espaço fiscal encolheu. O Reino Unido, por exemplo, saiu de dívida pública abaixo de 50% do PIB em 2008 para perto de 100% após resgates, covid e subsídios de energia pós-2022. O FMI resume: o “espaço para políticas” diminuiu.
- E a cooperação internacional piorou. Em 2008–09, reuniões relâmpago (Washington, Londres) ajudaram a evitar uma depressão. Em 2026, com guerras, tensões EUA–China, comércio em brasa e a política “América Primeiro” de Donald Trump, a governança global parece mais mesa de bar em briga do que sala de crise.
Os bancos estão mais fortes — mas a sombra cresceu
- Ponto para Sarah Breeden: os bancos tradicionais estão mais capitalizados, com mais colchão e menos apetite por roleta russa de liquidez. El‑Erian concorda… até a página dois: o sistema financeiro, na soma com seus “quase-bancos”, pode amplificar fragilidades e empurrar a economia para uma recessão.
- Quem paga a conta? Sempre os mesmos. Como lembra El‑Erian, os choques atingem com especial intensidade os mais vulneráveis. Em português claro: quando a liquidez evapora no alto, a renda evapora embaixo.
O que eu, Tony, vejo no painel de risco
- Não é 2008. É 2026 — com bancos mais sólidos, mas com riscos desencaixotados no crédito privado.
- O coquetel perigoso seria: choque energético persistente + queda de confiança no crédito privado (resgates e “gates” mais duros) + reprecificação de IA e ativos de risco. Breeden perguntou: “Estamos preparados?” A resposta educada é “parcialmente”; a honesta: “não o suficiente”.
- O mercado segue no modo “otimismo condicional”. Spoiler: otimismo funciona até o dia anterior ao reajuste.
O que acompanhar daqui para frente
- Fluxos e restrições em fundos de crédito privado (limites de resgate, valuation de ativos ilíquidos, alavancagem em cadeia).
- Dinâmica do petróleo e do Estreito de Ormuz: duração do choque e pass-through para inflação e juros.
- Resultados e guidance das Sete Magníficas: quando crescimento encontra múltiplos esticados, a gravidade volta a existir.
- Sinais de coordenação (ou sua ausência) entre governos e bancos centrais. Em 2008, coordenação salvou o dia; em 2026, o relógio corre mais rápido e a paciência política dura menos.
Encerrando
Bobby Seagull, hoje professor de matemática, diz que os mercados estão ainda mais complexos — e que as surpresas desagradáveis adoram se esconder nos rodapés. Concordo. A diferença é que, desta vez, os bancos parecem prontos para aguentar o tranco; o resto do sistema, nem tanto. Se a pergunta é “vem aí uma nova crise?” minha resposta é: não uma cópia carbono de 2008. Mas, se insistirmos no trio choque de energia + desalavancagem no crédito privado + reprecificação de IA, não faltará caixa de papelão para guardar ilusões. E, como sempre, quem menos pode é quem mais perde.
Nota do repórter
- Sobre a corrida bancária de 2007 no Reino Unido: o caso Northern Rock — com filas nas agências e posterior nacionalização — é referência clássica e bem documentada em registros públicos (Wikipedia, histórico do banco).