Renda recorde e desemprego baixo: por que o brasileiro segue endividado, mesmoganhando mais?

Por Tony — Blog do Tony

O Brasil está no curioso momento em que a economia sorri para as câmeras, mas a carteira do brasileiro continua em close de choro. O governo relançou o Desenrola Brasil (a versão 2.0 do programa de renegociação), mirando até 20 milhões de pessoas e até R$ 58 bilhões em dívidas reestruturadas. Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias bateu 80,9% em abril, a maior marca da série da CNC, e a inadimplência estacionou num incômodo 29,6%. Tudo isso com desemprego no piso histórico (6,1% no trimestre encerrado em março) e renda média em alta (R$ 3.722), segundo o IBGE. A pergunta é simples e dolorida: por que, mesmo com emprego e renda melhores, o brasileiro continua atolado?

O PARADOXO DO “GANHA MAIS, MAS SOBRA MENOS”

  • A resposta curta: porque o custo de vida e o peso das dívidas estão correndo mais rápido que o contracheque. O Banco Central mostra que o comprometimento da renda com dívidas chegou a 29,3% em janeiro, recorde da série. Traduzindo: quase um terço do que entra já sai carimbado para bancos.
  • E o que sobra vira arroz, luz, aluguel e passagem. Em março, itens essenciais abocanharam 41,8% do orçamento das famílias, segundo dados do IBGE compilados pela Tendências Consultoria. Sobra pouco para consumo, lazer, poupança — e menos ainda para quitar o passado.
  • Não é impressão: 71% dos brasileiros dizem comprar menos do que há um ano (pesquisa Quaest). A cesta básica virou um reality show de preços: o arroz já teve pico de 74,14% em 12 meses (jan/2021), e mais recentemente as carnes lideraram a inflação dos alimentos, com alta acumulada de 21,17% (jan/2025). O mercado de trabalho melhorou, mas o supermercado não recebeu o memorando.

CRÉDITO: O AMIGO DA PARCELA, O INIMIGO DO BOLETO

  • Primeiro, abrimos a porteira: em 2020, Selic a 2% ao ano turbinou o crédito. Era a ideia na pandemia. Depois, veio a conta: inflação disparou entre 2021 e 2022, o BC pisou no freio e levou a Selic a 13,75% (ago/2022). Houve algum alívio em 2024, mas em 2025 a incerteza global — sim, até eleição nos EUA bagunça cá — reacendeu pressões e a taxa básica foi a 15% (jun/2025), maior desde 2006. Crédito barato virou miragem.
  • Resultado? Famílias mais dependentes de financiamento com custo muito mais alto. O cartão de crédito é o rei do castelo de areia: 84,9% dos endividados o têm como principal modalidade (CNC), impulsionados pelo parcelamento “amigo” que, na prática, envelhece melhor que vinho — e pesa mais que chumbo.
  • Como resumiu o economista Flávio Ataliba (FGV Ibre), o mercado de trabalho aquecido não deu conta de aliviar o orçamento: custo de vida alto e dívidas acumuladas seguem no volante. Dá para ter emprego e mesmo assim afundar no crédito? Dá — e estamos aí para provar.

COMPORTAMENTO: O VIÉS DO PRESENTE E A NOVA “NORMALIDADE” DA DÍVIDA

  • Economia comportamental não perdoa: a economista Olívia Resende lembra o viés do presente — a tendência a valorizar o agora e ignorar o custo total lá na frente. Em bom português: olha-se a parcela, não a dívida. Com marketing agressivo, redes sociais e crédito digital a um clique, o impulso ganha de 7 a 1.
  • Some-se a isso a “normalização do endividamento”: quando todo mundo deve, a urgência some. E proliferam milagreiros em vídeo prometendo atalhos, como parar de pagar e “resolver tudo” via Lei do Superendividamento. Especialistas alertam: não existe cancelamento automático de dívida. Se fosse simples assim, agência bancária virava museu.
  • Falta educação financeira — na escola e em casa. Sem entender limites e custo efetivo do crédito, a pessoa vira refém da parcela eterna. E a cada mês o orçamento vira uma planilha de guerra.

DESENROLA 2.0: ANALGÉSICO, NÃO ANTIBIÓTICO

  • Em 2023, o Desenrola renegociou R$ 53,2 bilhões e alcançou 15 milhões de brasileiros. Funcionou? Sim, deu alívio temporário na inadimplência. Resolveu? Não — porque a raiz do problema (crédito caro + custo de vida + comportamento financeiro) continuou lá, intacta.
  • Agora, a nova rodada mira até 20 milhões de pessoas e R$ 58 bilhões. É necessário? É. Mas é política pública-tampão: sem atacar juros elevados de forma sustentável, a opacidade e o custo do crédito ao consumidor, e sem educação financeira, a gente só recicla o endividamento com data de retorno marcada.

POR QUE O BRASILEIRO SEGUE ENDIVIDADO, MESMO GANHANDO MAIS?

  • Porque o ganho é engolido por preços essenciais e por dívidas antigas que renascem a cada fatura.
  • Porque o crédito ficou muito mais caro enquanto a dependência dele aumentou.
  • Porque decisões financeiras são feitas sob pressão, com informação incompleta e estímulos que favorecem o “agora”.
  • Porque políticas de renegociação aliviam, mas não mudam hábito nem barateiam estruturalmente o crédito.

O QUE FALTA (ALÉM DE SORTE)?

  • Transparência e disciplina no crédito ao consumidor, para a parcela voltar a refletir realidade — e não ficção.
  • Educação financeira estrutural, começando cedo, como defende Olívia Resende: combinar alívio imediato com mudança de comportamento no longo prazo. Sem isso, empurra-se o problema com a barriga — e a barriga, no fim, é do contribuinte.
  • Ambiente macro previsível para juros menores de forma duradoura, em vez de gangorra. Senão, a economia posa para selfie enquanto a família brasileira continua no fiado.

Encerrando sem suspense: o Brasil de 2026 já explicou por A + B que emprego e renda são condição necessária, não suficiente, para desafogar a vida financeira. O Desenrola ajuda a respirar, mas não ensina a nadar — e o mar continua mexido. Se a política pública não vier acompanhada de crédito menos predatório e educação financeira pra valer, nos veremos aqui de novo, no próximo recorde de endividamento, repetindo a piada. Pena que não tem graça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like