Resumo do desastre anunciado, com recibo. Uma nova pesquisa do Financial Times, divulgada neste domingo (10) e conduzida pela britânica Focaldata entre 1º e 5 de maio com 3.167 eleitores registrados, mostra que 58% dos americanos desaprovam a forma como o presidente Donald Trump lida com a inflação e o custo de vida. Traduzindo: a conta do supermercado e o preço do galão de gasolina continuam gritando mais alto do que os slogans do governo. A seis meses das eleições de meio de mandato, o recado do eleitor é simples e nada sentimental.
Inflação, gasolina e a matemática que não fecha
- Custo de vida virou o nervo exposto da Casa Branca. Segundo o FT, o preço médio da gasolina nos EUA rondou US$ 4,60 por galão após a escalada no Oriente Médio — quase 50% acima do patamar de antes da piora do conflito. Trump diz em público que os preços seguem “muito baixos”. Os frentistas, aparentemente, esqueceram de combinar com o presidente.
- Não é só no posto: mais da metade dos entrevistados também reprova a atuação de Trump em emprego e na economia em geral. Para um governo que vendeu prosperidade como produto premium, o consumidor-eleitor está devolvendo a mercadoria no balcão.
Tarifas que mordem o bolso
- A política tarifária, menina dos olhos do trumpismo econômico, está levando bronca: 55% dos eleitores dizem que as tarifas impostas pelo governo prejudicaram a economia dos EUA. Apenas cerca de um quarto enxerga benefícios.
- O incômodo cruza fronteiras partidárias. Independentes e até uma fatia dos republicanos rejeitam as tarifas — em menor grau, mas rejeitam. Quando o bolso dói, a ideologia costuma tomar anti-inflamatório.
Guerra no Irã: geopoliticamente caro
- A pesquisa foi feita em meio ao agravamento do conflito no Oriente Médio, após ataques aéreos dos EUA e de Israel contra o Irã no fim de fevereiro, que empurraram para cima o petróleo e, com ele, a inflação importada. Sim, geopolítica tem preço, e ele aparece na bomba.
- Resultado: 54% desaprovam a condução de Trump na guerra contra o Irã. Entre republicanos, cerca de 20% também torcem o nariz. Quando até a base chia, é sinal de que o ruído virou barulho.
O termômetro eleitoral
- O desgaste econômico e externo contamina a avaliação geral do governo: 54% desaprovam o desempenho de Trump; 39% aprovam.
- Entre independentes — o eleitorado que decide eleição quando todo o resto já decidiu o que acha — a rejeição passa de 58%.
- O Financial Times aponta vantagem democrata de oito pontos entre eleitores registrados na disputa pelo Congresso, com a diferença crescendo entre independentes. Hoje, os republicanos controlam a Câmara e o Senado, mas a maré econômica pode abrir espaço para uma virada em novembro. Não seria a primeira vez que a carteira derrota o crachá.
O que diz a Casa Branca
- Procurada pelo FT, a Casa Branca minimizou os resultados. Em nota, citou cortes de impostos, desregulamentação e a política energética como razões para manter a economia em “trajetória sólida”. Aposta também na redução das tensões no setor energético para aliviar a gasolina, melhorar salários reais e frear a inflação.
- Estratégia conhecida: culpar o termômetro pela febre e prometer que o ar-condicionado está chegando. O problema é que, para o eleitor, a conta chega antes do conserto.
Por que importa
- Política econômica é, no fim do dia, política de preços — de comida, combustível, aluguel. Quando 58% dizem que a direção está errada e 55% veem tarifas como tiro no próprio pé, a campanha de meio de mandato ganha um roteiro: o custo de viver nos EUA sob Trump 2.0.
- Se a guerra encarece o petróleo, as tarifas encarecem importados e a retórica encarece expectativas, o “mix Trump” vira inflação com gosto de política. E o eleitor, esse chato insistente, cobra no caixa.
Opinião do Tony
O governo promete trajetória sólida enquanto o carrinho do supermercado sai cambaleando. Chama-se dissonância. Pode até render bons discursos; só não enche o tanque. Se nada mudar no bolso rapidamente, o FT não está soando alarme falso — está só lendo o painel do carro: luz da reserva acesa, temperatura alta e o motorista jurando que “está tudo sob controle”. No Blog do Tony, a gente já viu esse filme: é sempre a economia — e, sim, ela fala mais alto que o Twitter do presidente.
Fontes
Financial Times (pesquisa Focaldata, 1º–5 de maio, 3.167 eleitores); contexto de preços de combustíveis e escalada no Oriente Médio conforme reportado pelo FT; composição do Congresso dos EUA conforme registros públicos recentes.