Blog do Tony
Aconteceu o que ninguém aceita como “normal” no futebol: um garoto de 14 anos morreu durante um treino. Myguel Martins Oliveira, estudante do Colégio Estadual da Polícia Militar de Goiás Dep. José Alves de Assis, passou mal enquanto treinava em uma escolinha mantida pela prefeitura de Heitoraí, no noroeste de Goiás, e chegou à unidade de saúde sem pulso. A equipe tentou reanimá-lo, sem sucesso. O óbito foi registrado na quarta-feira (15). A causa ainda será determinada pelo Serviço de Verificação de Óbito (SVO). Triste, revoltante e, pior, previsível no país que acha que desfibrilador é acessório de luxo, tipo banco de couro.
O que se sabe
- Local: Heitoraí (noroeste de Goiás).
- Vítima: Myguel Martins Oliveira, 14 anos.
- Contexto: treino de escolinha de futebol mantida pela prefeitura, segundo Pedro Augusto, responsável pelo time.
- Atendimento: de acordo com o secretário municipal de Saúde, Alison Paulinelle, o adolescente chegou à unidade já sem pulso e não respondeu às manobras de reanimação.
- Causa da morte: pendente de laudo do SVO.
- Repercussão: a escola onde Myguel estudava lamentou a perda; a Prefeitura de Heitoraí emitiu nota de pesar.
Fatos, contexto e as perguntas que ninguém gosta de encarar
- Morte súbita em jovens atletas é rara, mas acontece — e quase sempre pega todo mundo desprevenido. Diretrizes internacionais, como as da American Heart Association e do European Resuscitation Council, lembram o básico que o Brasil insiste em tratar como novidade: a cada minuto sem desfibrilação, a chance de sobrevivência em uma parada cardíaca por arritmia cai cerca de 7% a 10%. Tradução: sem desfibrilador e sem RCP imediata, o relógio vira inimigo.
- Havia desfibrilador externo automático (DEA) disponível no local do treino? Havia alguém treinado em RCP? Quanto tempo demorou para começar a reanimação e para chegar atendimento avançado? Essas respostas são tão importantes quanto o laudo do SVO — e geralmente são as que ficam sem dono.
- O Brasil tem a Lei Lucas (Lei 13.722/2018), que obriga capacitação básica em primeiros socorros em escolas. Ótimo começo. Mas escolinha de futebol mantida por prefeitura entra onde nesse mapa? Entre a boa vontade e a execução costuma morar um vácuo. E é nele que vidas se perdem.
- Avaliação pré-participação esportiva (anamnese, exame físico e, quando indicado, exames complementares) é recomendada por entidades médicas para jovens atletas. Não é “bola de cristal”; é triagem de risco. Foi feita? Com qual periodicidade? Transparência agora evita desculpas depois.
Quem era Myguel, e o mínimo que o poder público precisa fazer
- Myguel era aluno do Colégio Estadual da Polícia Militar de Goiás Dep. José Alves de Assis, que lamentou oficialmente a morte do estudante. A prefeitura também se manifestou em nota de pesar. A solidariedade é merecida — só não pode ser o único plano de contingência.
- A gestão municipal deve divulgar, com rapidez e clareza: protocolo de emergência adotado, existência (ou não) de DEA no local, qualificação dos profissionais presentes, tempo de resposta do socorro e se havia ambulância ou transporte adequado em plantão para a atividade esportiva. A sociedade não precisa de rodeios; precisa de padrões.
Opinião (sim, é o Blog do Tony)
É sempre assim: quando o pior acontece, chovem notas de pesar e promessas de “apuração rigorosa”. Enquanto isso, desfibrilador é tratado como item “opcional” e treinamento em RCP como “custo”. No futebol brasileiro, investe-se em colete, cone e discurso motivacional; quando muito, uma garrafa d’água gelada. Segurança cardíaca? Só se sobrar no orçamento — e quase nunca sobra. Se a escolinha tinha DEA e pessoal treinado, merece aplauso e publicidade. Se não tinha, que essa tragédia sirva ao menos para acabar com a fantasia de que boa vontade salva sem preparo. Em emergência, improviso é sinônimo de atraso.
Próximos passos
- O laudo do SVO deve apontar a causa da morte. Paralelamente, a prefeitura e a direção da escolinha precisam apresentar um relatório transparente sobre o atendimento prestado, os equipamentos disponíveis e o cumprimento (ou não) de protocolos de emergência.
- Para ontem: implantar (ou auditar) protocolos de primeiros socorros, garantir DEA nos locais de treino e treinar periodicamente quem está em quadra e na beira do campo. Não é “luxo europeu”; é o mínimo.
Fontes e referências
- g1 – “Adolescente morre durante treino de futebol em Goiás” (16/04/2026): https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2026/04/16/adolescente-morre-durante-treino-de-futebol-em-goias.ghtml
- Diretrizes internacionais de ressuscitação (AHA/European Resuscitation Council) sobre queda de sobrevivência por minuto sem desfibrilação (7%–10%).
- Lei 13.722/2018 (Lei Lucas) – capacitação em noções de primeiros socorros em escolas.
Que a família de Myguel encontre conforto — e que o poder público encontre vergonha na cara para transformar discurso em protocolo, e protocolo em vida preservada.