Resumo do dia
A Polícia Federal voltou à porta de Ricardo Magro nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026, em mais uma etapa do roteiro que mistura petróleo, fisco e investigação policial. Advogado e empresário, comandante do grupo Refit — dono da Refinaria de Manguinhos, no Rio — Magro é citado em operações que miram de sonegação a suposta infiltração do PCC no mercado de combustíveis. Para completar, o Supremo Tribunal Federal determinou sua prisão e a inclusão do seu nome na lista vermelha da Interpol, enquanto a PF cumpre mandados, inclusive em Jundiaí (SP), contra empresas do grupo. No mesmo balaio, o ex-governador do Rio, Cláudio Castro, também é alvo. É o Brasil do combustível caro e dos impostos que evaporam antes de chegar ao tanque.
Quem é e de onde vem
Ricardo Magro, 51 anos, paulistano, é advogado com pós-graduação em direito tributário e está à frente da antiga Refinaria de Manguinhos — rebatizada de Refit — desde 2008. Ganhou projeção no Rio, mas desde 2016 vive em área nobre de Miami, nos Estados Unidos. Um endereço sempre útil quando o noticiário mistura Polícia Federal, STF e Interpol — pura coincidência, claro.
O empresário e seu grupo aparecem nos rankings nada honrosos de devedores do país: a Refit é apontada como o maior devedor de ICMS de São Paulo, o segundo do Rio e um dos maiores da União. Segundo reportagens e dados fiscais citados pela imprensa, o conglomerado acumula disputas com o Fisco e com órgãos reguladores. Magro, por sua vez, diz ser vítima de “perseguição institucional” de gigantes do setor, como a Cosan (controladora da marca Shell no Brasil), e afirma que campanhas de entidades como o Instituto Combustível Legal atuam para tirá-lo do jogo. Nessa versão, ele seria um empresário incompreendido numa mesa dominada pelos grandes; o problema é que a Receita não costuma rir desse tipo de piada.
As operações: Sem Refino, Carbono Oculto e companhia
A Operação Sem Refino, deflagrada pela PF nesta sexta (15), tem Magro e a cúpula da Refit no radar, assim como o ex-governador do RJ, Cláudio Castro. Mandados são cumpridos no Rio e em São Paulo — inclusive em Jundiaí, em endereços ligados à empresa. Em paralelo, o STF determinou a prisão de Magro e a inclusão do nome dele na lista vermelha da Interpol — aquele “aviso ao mundo” de que as autoridades brasileiras o querem por perto para uma conversa formal. Segundo o G1, a medida reforça a escalada do caso e o esforço de cooperação internacional.
O nome de Magro também já apareceu na Operação Carbono Oculto, que investiga a atuação do PCC no mercado de combustíveis e chegou à Faria Lima, o coração financeiro de São Paulo. Documentos oficiais mencionam a Refit como parte de um fluxo comercial envolvendo empresas supostamente usadas pela facção. A Refit não foi alvo de buscas naquela ocasião. Magro nega irregularidades e afirma ter colaborado com autoridades para denunciar práticas criminosas no setor — e que, por isso, passou a sofrer ameaças e retaliações. Se for verdade, está aí um roteiro no qual o protagonista apanha dos dois lados; se não for, é mais um capítulo da longa novela “eu não, senhor”.
Tributos, fundos de pensão e velhas feridas
Não é de hoje que o noticiário cola em Magro. Em 2016, ele foi um dos alvos da Operação Recomeço, da PF e do Ministério Público Federal, que investigou desvio de recursos de fundos de pensão da Petrobras e dos Correios. À época, Magro — ex-advogado de Eduardo Cunha — era sócio do Grupo Galileo, que emitiu debêntures de R$ 100 milhões em 2010 para “salvar” a Universidade Gama Filho. Segundo o MPF, há indícios de que parte desse dinheiro desviou do caminho certo e foi parar nas contas de investigados. Magro nega, mas o fato é que o capítulo ficou mal arquivado, e agora volta a cair da prateleira.
Interdições, ANP e a gangorra judicial
A dona da Refinaria de Manguinhos tem histórico de embates com a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Em 2025, a planta foi interditada, reaberta por decisão do Tribunal de Justiça do Rio e, dias depois, novamente interditada por ordem do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Esse vai-e-vem jurídico virou padrão: fecha-se por suspeitas regulatórias, abre-se por liminar, fecha-se de novo por decisão superior. Para o motorista na bomba, isso se traduz em incerteza e, muitas vezes, combustível de baixa qualidade no debate público — o único que não falta.
Ainda em 2024, o Ministério Público de São Paulo apontou a Refit em investigações sobre sonegação e adulteração de bombas. As acusações giram em torno de práticas que afetam concorrência, arrecadação e, no fim da linha, o bolso do consumidor. A Refit alega perseguição e diz seguir as normas. O problema é que, quando a empresa está sempre no VAR, é porque o jogo não está limpo — ou porque o árbitro tem a lupa colada na tela. Eu, por via das dúvidas, manteria a revisão do lance.
Marketing de alto octanagem
Apesar da ficha de problemas, a Refit acelerou no marketing: em 2021, lançou uma linha de combustíveis com a marca do UFC; no ano passado, anunciou patrocínio à NFL no Brasil. É o velho truque corporativo: quando a imagem arranha, cola um adesivo de esporte milionário por cima. Funciona com parte do público e rende fotos bonitas; com o Fisco e a PF, tende a não fazer tanta diferença.
O que diz o outro lado
Magro tem repetido que é vítima de uma campanha orquestrada por concorrentes e por instituições “capturadas” pelos grandes do setor. Alega colaborar com autoridades, rejeita qualquer elo com organizações criminosas e nega irregularidades tributárias, atribuindo autuações e dívidas a disputas judiciais e interpretações fiscais que um dia, quem sabe, a Justiça resolverá. É o tipo de narrativa que sempre encontra audiência no país da litigância eterna e da burocracia sem fim. Mas entre o convencimento no microfone e a prova no processo, há um oceano — com ou sem Miami no horizonte.
Por que importa
- Mercado de combustíveis: quando uma grande refinaria/distribuidora vive sob constante investigação, toda a cadeia sente. Concorrência, arrecadação e preço na bomba entram na roda.
- Segurança pública: a hipótese de infiltração do crime organizado no setor — investigada em operações como a Carbono Oculto — acende um alerta que vai muito além de “guerra de preços”.
- Governança e política: a presença do ex-governador do RJ entre os alvos da PF mostra que o caso também respinga onde o óleo sempre respingou: na política local.
Próximos passos
A PF segue cumprindo mandados no âmbito da Operação Sem Refino; a defesa de Magro deve recorrer das medidas e questionar a decisão do STF que determinou sua prisão e a inclusão na lista da Interpol. No front regulatório, as pendências com a ANP e as disputas tributárias continuam a gritar no retrovisor. O enredo é antigo: combustível de alto risco, transparência de baixa octanagem e um país que, entre a bomba e o boletim de ocorrência, ainda tenta não explodir.
Opinião do Tony
Há empresários que constroem impérios na eficiência; outros, na resiliência jurídica. Ricardo Magro virou símbolo de um setor em que as regras são tantas quanto as brechas — e onde, convenhamos, quem tem tanque grande nada de braçada. Se é perseguido, como alega, a Justiça dirá. Se deve como apontam os autos, o contribuinte já está pagando a conta faz tempo. Em qualquer cenário, uma verdade é inadiável: sem previsibilidade fiscal e regulatória — e sem um fim ao vale-tudo tributário — o mercado de combustíveis continuará sendo o posto de gasolina onde o Brasil abastece a sua desconfiança. Bem-vindos ao Blog do Tony. Voltem sempre. Só não deixem a carteira no balcão.