Blog do Tony
Brasília, 30 de maio de 2026 — O governo dos Estados Unidos incluiu o PCC e o Comando Vermelho na lista de organizações terroristas, e o efeito no Brasil foi imediato: o ministro da Fazenda, Dario Durigan, acusou um “ataque eleitoral” e alertou para impactos negativos na economia — do sistema financeiro ao PIX. Para temperar o enredo, a decisão veio dois dias após o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o secretário de Estado americano, Marco Rubio; segundo o parlamentar, Rubio era favorável ao carimbo de “terrorismo” às facções — coincidência, dirão uns; timing cirúrgico, dirá quem já está em campanha. Eu, Tony, fico com a segunda hipótese.
O que muda com o rótulo de “terrorismo”
- Não é só semântica. Quando Washington rebaixa grupos do crime organizado ao inferno jurídico do “terrorismo”, vêm junto sanções, bloqueio de ativos sob jurisdição americana e uma engrenagem de compliance que aperta bancos e empresas mundo afora. Na prática, aumenta o risco de “sobrerregulação” e de desengajamento de parceiros internacionais — o famoso de-risking — especialmente em correspondentes bancários. Para quem opera comércio exterior ou depende de pagamentos e liquidações com interface em dólar, o recado é claro: prepare-se para mais papelada, custos e cautela.
- Durigan soou esse alarme:
“Cabe ao governo brasileiro, mais uma vez, como foi feito no tarifaço do ano passado, dar um passo à frente e proteger o nosso sistema financeiro, que pode ser o primeiro afetado, mas também os nossos empresários e as famílias brasileiras”, disse. Concorde-se ou não com o tom, o ponto técnico existe: o novo enquadramento tende a contaminar, por proximidade de risco, operações legítimas que nada têm a ver com facções — e banco com medo fecha a porta antes de perguntar.
PIX na mira (e na inveja internacional)
- O ministro mirou também o PIX, pedra no sapato da velha intermediação financeira: “Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses estrangeiros”. O governo já havia emitido nota mais cedo, e Durigan reforçou a tese de que muitas críticas internacionais ao sistema de pagamentos instantâneos brasileiro partem de empresas que perderam receita com a queda drástica dos custos de transferência. Aqui, justiça seja feita: o PIX virou padrão doméstico, empurrou tarifas para o chão e obrigou bancos e bandeiras a se mexer. Dizer que “terrorismo” lá fora possa respingar aqui dentro é duro de engolir — mas, conhecendo a fobia de risco de certos bancos globais, dá para imaginar conversas desconfortáveis com compliance em breve.
Política em modo campanha
- A decisão dos EUA foi anunciada na quinta (28), dois dias após Flávio Bolsonaro se encontrar com Marco Rubio. O senador celebrou que o secretário de Estado se mostrara favorável à medida. Como cortesia diplomática, perfeito; como coincidência eleitoral, melhor ainda. Durigan classificou o gesto como “ataque eleitoral”. Em ano de pré-campanha presidencial no Brasil, ninguém perde a chance de transformar geopolítica em palanque. Washington ajusta o discurso de segurança; Brasília acusa o golpe econômico; e a oposição ergue a plaquinha de “tolerância zero”. Cada um fala com sua base — e o centro do ringue é a economia.
Quem são PCC e Comando Vermelho (sem eufemismo)
- O PCC, nascido no sistema prisional paulista nos anos 1990, é amplamente apontado por estudos e reportagens como a maior facção criminosa do país, com atuação que extrapola fronteiras e forte eixo no tráfico internacional de cocaína. O Comando Vermelho, surgido no Rio de Janeiro nos anos 1970, também fincou pé no tráfico e em disputas territoriais. Não são novidade para ninguém: são organizações criminosas de alto impacto, historicamente ligadas a violência, lavagem de dinheiro e corrupção. Se chamá-las de “terroristas” melhora a cooperação internacional ou só troca etiqueta para o mesmo problema — eis a discussão. Eu tendo a achar que rebatizar o incêndio não apaga o fogo.
O que observar a partir de agora
- Bancos e fintechs: tendência a reforço de due diligence e eventuais freios em operações com maior risco reputacional.
- Comércio exterior: possível cautela adicional em cadeias expostas a regiões/rotas sensíveis.
- Relação Brasil–EUA: Itamaraty deve calibrar a resposta; o Ministério da Fazenda, o Banco Central e o Coaf precisarão oferecer segurança jurídica para evitar que o remédio americano vire febre por aqui.
Fecho do Tony
O governo americano pôs PCC e CV no porão do terrorismo, e o governo brasileiro viu nisso um míssil político e econômico. Os dois têm seus motivos: um fala para o eleitor de “lei e ordem”; o outro tenta evitar que o pânico de compliance transforme banco em cofre trancado. Enquanto isso, o PIX — essa jabuticaba que deu certo — entra de gaiato na discussão. Se a classificação vai asfixiar facções ou só engasgar a economia formal, saberemos em breve. Até lá, menos pirotecnia e mais coordenação: política externa se faz com diplomacia; combate ao crime, com inteligência e dinheiro seguindo o fluxo certo. O resto é manchete — e campanha.
Sources: informações do G1 sobre a decisão dos EUA e as declarações de Dario Durigan e Flávio Bolsonaro; contexto histórico amplamente documentado sobre PCC e Comando Vermelho.