Durigan diz que ‘gargalo’ da economia são os juros altos: ‘quem é menos culpadoé o Ministério da Fazenda’

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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, escolheu o vilão do momento: os juros. Segundo ele, o “gargalo” da economia brasileira é a taxa de juros elevada — hoje com a Selic em 14,25% ao ano, e, em termos reais, no topo do ranking de 40 países da MoneYou. Enquanto isso, a dívida pública ronda 81,4% do PIB. Durigan fala em “harmonizar” a política fiscal com a monetária, mas rejeita a ideia de que as decisões do próprio governo — mais gastos, mais crédito subsidiado e estímulos — estejam pressionando o Banco Central (BC). Tradução da fala oficial: o problema é a febre, não o termômetro. E, claro, “quem é menos culpado é o Ministério da Fazenda”.

O que disse o ministro

  • Gargalo e coordenação: Durigan crava que os juros altos travam o investimento privado e encarecem a dívida. Defende “harmonização” entre receitas, despesas e a política de juros do BC.
  • Isenção de culpa: Ele nega que a estratégia do governo — com estímulos e expansão de crédito subsidiado — esteja dificultando cortes mais agressivos na Selic.
  • Crédito em ano eleitoral: Linhas com taxas favorecidas para caminhões, ônibus, reforma de imóveis, táxis e o Desenrola 2.0? O ministro diz que não atrapalham o ciclo de queda dos juros. Otimismo é bom; evidência, melhor ainda.
  • Ajuste fiscal prometido: Compromete-se com contenção de gastos e redução de benefícios fiscais, além de “tributar mais os ricos” e rever programas sociais ao longo dos próximos anos.
  • Tópicos espinhosos, só depois: Desindexar salário mínimo em benefícios previdenciários e mexer nas vinculações de saúde e educação? “Debate para o próximo governo.”
  • Arcabouço fiscal: Considera a regra aprovada em 2023 “viável e sustentável”, apesar da compressão crescente dos gastos livres — aquela que todo gestor conhece como “vai faltar luz e papel”.

O pano de fundo: juros, dívida e coordenação

  • A Selic em 14,25% ao ano, mesmo após cortes recentes, permanece elevadíssima em termos reais. Em ranking da MoneYou com 40 nações, o Brasil segue líder — uma medalha de ouro que ninguém pendura na parede.
  • Juros e dívida: grande parte da dívida pública é corrigida pela taxa de juros. Quando a Selic sobe, a conta de carregamento explode. Sim, é aritmética, não opinião.
  • O BC explica que sua atuação é reativa: ajusta a taxa conforme o cenário, mirando a inflação. E a Selic é, por natureza, uma taxa de curto prazo. Se o fiscal afrouxa, o monetário tende a apertar. Dois remadores em sentidos opostos não fazem o barco andar — fazem GIF.
  • Em 2023, o então presidente do BC, Roberto Campos Neto, resumiu: juros são altos porque a dívida é alta, não o contrário. É a velha sequência causa-efeito que muita gente tenta reescrever com caneta colorida.

O ruído entre Fazenda e BC (e o mercado no meio)

  • Economistas apontam falta de “harmonização” de fato: governo estimulando a demanda, BC tentando esfriar a economia para segurar a inflação. O resultado? Descompasso que pressiona a taxa de juros e atrasa a queda sustentável.
  • Mercado financeiro em modo cético: crítica ao combo de aumento de impostos com expansão de gastos. A conta cresce, a dívida não esfria e o juro real precisa compensar o risco. Analistas reiteram: foco em cortes de despesas e revisão de subsídios para abrir espaço à queda consistente da Selic.
  • Crédito subsidiado ampliado no terceiro mandato reforça a sensação de atalho. É popular, rende manchete, mas encarece o custo de oportunidade do resto da economia. Não é à toa que o BC pisa no freio enquanto a Fazenda passa marcha.

Quem é “menos culpado”?

Se o ministro busca o prêmio de “menos culpado”, o júri (leia-se: dados) é exigente. Juros altos não são uma excentricidade do Copom; são a resposta a uma combinação de dívida elevada, expectativas fiscais erráticas e políticas que estimulam a demanda no curto prazo. Dizer que não há pressão adicional do lado fiscal enquanto se expande crédito direcionado e se adia discussões duras (desindexações, revisão de benefícios, cortes de gasto) é o equivalente econômico a pedir serenata ao trombone: dá barulho, não dá melodia.

O que observar daqui para frente

  • Execução, não promessa: contenção real de gastos, corte de benefícios fiscais ineficientes e sinalização crível de estabilização da dívida.
  • Coordenação de verdade: menos remadas cruzadas entre Fazenda e BC e mais consistência intertemporal. Se a âncora fiscal segura, a âncora monetária afrouxa.
  • Menos subsídio, mais previsibilidade: crédito direcionado em ano eleitoral cobra pedágio na forma de prêmio de risco. Sem esse pedágio, a Selic cai mais rápido e com menos soluço.

Encerramento

Durigan tem razão ao apontar que juros altos travam o investimento e agravam a dívida — parabéns pela obviedade. Mas parar aí é conveniente. O custo do dinheiro é o sintoma; a doença é a incerteza fiscal crônica e a insistência em empurrar estímulos enquanto se marca reunião para discutir cortes “no próximo governo”. Se a “harmonização” sair do discurso e for para o Diário Oficial, o juro cai. Até lá, a economia segue no compasso do freio de mão: andando, mas com aquele cheiro de embreagem que o leitor do Blog do Tony reconhece de longe.

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