Lula amplia crédito com taxas favorecidas em terceiro mandato, preocupa BC epressiona juros

Blog do Tony

A participação do crédito direcionado – aquele com juros menores e bênção oficial – voltou a subir no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e já bate 43,1% do volume total em março, segundo o Banco Central. Resultado: a Selic segue num patamar elevado, em 14,5% ao ano, porque a política monetária precisa gritar mais alto para ser ouvida por um mercado em que quase metade do crédito não responde ao juro básico. Em termos reais, é o segundo juro mais alto do planeta, lembra o G1 (29/4/2026). Traduzindo: meia‑entrada no crédito, inteira na conta de todo mundo.

O que é crédito direcionado (e por que ele é baratinho)

  • É o financiamento com finalidade obrigatória definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), destinado a setores como imobiliário, rural e infraestrutura.
  • Cobra juros menores e prazos mais longos porque conta com subsídio do governo, fontes de recursos mais baratas e garantias públicas.
  • Justamente por ser “turbinado” fora da dinâmica de mercado, ele reduz a potência da Selic — que é o preço do dinheiro entre bancos e referência para boa parte do crédito livre.

O que mostram os dados do BC

  • Participação: 43,1% do total de crédito em março de 2026 — maior nível desde o fim de 2019.
  • Custo médio histórico: entre março de 2011 e março de 2026, juros médios de 9,3% ao ano no crédito direcionado contra 38,8% ao ano no crédito com recursos livres. Sim, quase quatro vezes mais caro no mercado “normal”.
  • Trajetória recente: o direcionado voltou a crescer no terceiro mandato de Lula, após queda na gestão Jair Bolsonaro. E, como todo bom filme de temporada, acelerou com a proximidade das eleições, com anúncios de linhas mais baratas.

Por que isso pressiona a Selic

Quando uma fatia grande do crédito roda fora do alcance direto da Selic, o Banco Central compensa mantendo a taxa básica mais alta para segurar a inflação e desaquecer o restante da economia. O próprio BC explica esse mecanismo: se o juro básico sobe e boa parte do crédito não liga para ele, é preciso subir mais. Daí o 14,5% ao ano — e o Brasil figurando no pódio mundial do juro real, segundo o G1 (29/4/2026).

A analogia mais didática veio em 2023, com Roberto Campos Neto: é a “meia‑entrada no cinema” (G1, 18/4/2023). Se muita gente paga meia, o ingresso cheio encarece. No crédito, se muito dinheiro sai subsidiado, o resto da economia paga a diferença na Selic. Quem disse que política econômica não tinha senso de humor?

As vozes do mercado (e o recado do BC)

  • Sergio Vale, economista‑chefe da MB Associados, resume a aritmética: em vez de ampliar linhas específicas a essa altura do campeonato, seria mais eficaz cortar gastos de forma mais intensa para abrir espaço a juros menores para todos — e não só para os “convidados VIP”.
  • A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) concorda que mais crédito direcionado enfraquece a política monetária, mas pondera: a aceleração atual é bem menos acentuada do que no início dos anos 2010 e ainda distante dos 50% de participação vistos em 2016/2017. Ou seja, já fomos mais “viciados” em subsídio — o que não significa que a recaída atual seja inofensiva.
  • Gabriel Galípolo, atual presidente do BC, chamou de “idiossincrático” o nosso combo: juro real perto de 10% ao ano, inflação acima da meta e desemprego em mínima histórica, em audiência no Senado neste mês. Idiossincrático é um jeito elegante de dizer: algo aí não fecha.

O espelho internacional (com a devida cautela)

Comparar países é exercício ingrato porque poucos medem crédito direcionado do mesmo jeito. Ainda assim, estimativas do BC indicam o Brasil muito à frente: cerca de 43% do crédito total é direcionado, contra 26% no México; e a maioria dos demais fica abaixo de 5%. Ou seja, nossa “meia‑entrada” é caso quase único — e caro.

Política, calendário e a conta no final

Com a regra fiscal limitando a farra dos gastos, o governo achou nas linhas favorecidas um atalho em ano eleitoral para irrigar habitação, campo e infraestrutura. Funciona no curto prazo — o crédito sai, a obra anda, a base social sorri —, mas empurra o custo para a prateleira de cima: uma Selic mais elevada por mais tempo, encarecendo o crédito livre das famílias e empresas que não têm cadeira cativa no balcão do subsídio.

Opinião do Tony

O Brasil insiste em resolver a economia com meia‑entrada. É simpático na bilheteria e péssimo no caixa. Enquanto o governo pisa no acelerador do crédito subsidiado, o BC pisa no freio com juros estratosféricos. Resultado? Pneu cantando, consumo patinando e investimento hesitando. Se a ideia é democratizar o crédito, melhor atacar o óbvio ululante: gastar menos, dar previsibilidade e permitir que a Selic caia para todos — não só para quem tem convite com selo oficial.

No fim do dia, o país pode até preferir a glamourização do direcionado. Mas não reclame do ingresso: quando a meia‑entrada vira regra, a inteira – paga por quem não tem padrinho – fica impraticável. E a economia, essa plateia cansada, continua esperando o filme melhorar.

Fontes e referências

  • Banco Central do Brasil: séries de crédito direcionado e crédito com recursos livres (participação e taxa média histórica).
  • G1, 29/4/2026: Brasil tem um dos juros reais mais altos do mundo.
  • G1, 18/4/2023: Roberto Campos Neto compara crédito direcionado à “meia‑entrada no cinema”.
  • Declarações públicas de Gabriel Galípolo em audiência no Senado, em maio.
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